quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Medo do Medo

O medo do medo de ter medo,

Mascara sensações e emoções

Encobre fatos relevantes

E enche de dúvidas o meu coração.

Fazer as besteiras que fazia,

Rever sentimentos de tristeza

Parece marchar contra a vida

Na hora em que esta começa a brotar.

Meu caro e fidedigno amigo

Repousa em meus ombros o olhar

Dizendo o que quer realmente

Fingindo saber me enrolar

Parece tristeza anunciada

Ou então melancolia ao redor

Mas é desabafo contido

No peito de quem quer ganhar.

Trago consciências nas palavras que são ditas

Trazem esperança pro meu caminhar,

Pois sei que ao esperar essa dívida

Caminhos não irei encontrar.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Conto Solo

Era cedo, muito cedo. O sol apontava no horizonte em meio ao verde da selva nem tão distante assim. Nuvem não se via. O céu em seu esplendor fazia jus, como nunca, ao termo “azul celeste”. O frio de manhã de inverno que parecia procurar um local aconchegante para se esconder, adentrava ao corpo cansado pelas narinas e deixava um rastro de solidão que passava pela traquéia e congelava os pulmões. O orvalho ameaçava subir, e na ânsia de evaporar-se, escorria por pára-brisas e vitrines comerciais naquele exato ponto do centro da cidade. Cheiro preto de café forte e a brisa rasteira sacudindo as páginas úmidas do dominical embalavam a angústia de mais uma noite de peripécias e folias mal dormidas, traduzindo o amargo e desesperado sentimento de vazio.

Chega de fumaças. Não era aquela enganação que viria para satisfazer a tensão estática do momento em questão. O boicote havia se tornado confidente e de repente tudo parecia tender a ficar extremamente claro. Como num passe de mágicas, sabia que algo estava por acontecer.

Três outros, nem tão mais novos, dobravam a esquina com semblantes menos ríspidos, satisfeitos com uma possível trama que a vida havia lhes pregado. Curioso.

- Trazem mais dessa tranquilidade? Onde a conseguiram? É muito caro?

Ingenuidade genuína ainda acreditar em subterfúgios para alcançar um possível sentimento de conforto.

O trio descontraído parecia não entender o questionamento. Para eles aquele semblante era o natural e de onde vinham esse era o senso comum.

- Desculpe, é com a gente? Questionou o mais robusto diminuindo a velocidade de seus passos à medida que se aproximavam.

- Esse ar benevolente que os cerca, é fácil adquirir?

- Fácil relativiza demais um possível dom que a vida nos oferece a cada dia, mas para sua informação, carregamos essa satisfação excepcionalmente hoje por perceber a conotação do enredo.

- Enredo, que enredo?

- O enredo do qual fazemos parte.

- Vocês fazem parte de alguma agremiação de samba?

- É claro que não, mas se quisermos podemos.

- E querem?

- No momento não é o que importa. O que importa é sentir esse momento e suceder por outros de igual sensação. O gozo de viver em paz e harmonia é o prazer que muitos procuram e não fazem ideia que está bem ali dobrando o quarteirão.

Agora a angustia mesclava-se a uma confusão geral e desfalecia aquele sentimento de novidade. Esperar tornou-se imperativo e um branco de ideias surgiu e deixou-se vagar a passos mudos pela cidade até repousar no velho sofá de remendos e pêlos de gato no meio de um cômodo sombrio.

A escolha está feita e a opção desejada ficará nessa sombra sem jamais saber, pelo menos naquele exato momento, como ser literalmente pleno e confortável sem o auxílio de ninguém.