Era cedo, muito cedo. O sol apontava no horizonte em meio ao verde da selva nem tão distante assim. Nuvem não se via. O céu em seu esplendor fazia jus, como nunca, ao termo “azul celeste”. O frio de manhã de inverno que parecia procurar um local aconchegante para se esconder, adentrava ao corpo cansado pelas narinas e deixava um rastro de solidão que passava pela traquéia e congelava os pulmões. O orvalho ameaçava subir, e na ânsia de evaporar-se, escorria por pára-brisas e vitrines comerciais naquele exato ponto do centro da cidade. Cheiro preto de café forte e a brisa rasteira sacudindo as páginas úmidas do dominical embalavam a angústia de mais uma noite de peripécias e folias mal dormidas, traduzindo o amargo e desesperado sentimento de vazio.
Chega de fumaças. Não era aquela enganação que viria para satisfazer a tensão estática do momento
Três outros, nem tão mais novos, dobravam a esquina com semblantes menos ríspidos, satisfeitos com uma possível trama que a vida havia lhes pregado. Curioso.
- Trazem mais dessa tranquilidade? Onde a conseguiram? É muito caro?
Ingenuidade genuína ainda acreditar em subterfúgios para alcançar um possível sentimento de conforto.
O trio descontraído parecia não entender o questionamento. Para eles aquele semblante era o natural e de onde vinham esse era o senso comum.
- Desculpe, é com a gente? Questionou o mais robusto diminuindo a velocidade de seus passos à medida que se aproximavam.
- Esse ar benevolente que os cerca, é fácil adquirir?
- Fácil relativiza demais um possível dom que a vida nos oferece a cada dia, mas para sua informação, carregamos essa satisfação excepcionalmente hoje por perceber a conotação do enredo.
- Enredo, que enredo?
- O enredo do qual fazemos parte.
- Vocês fazem parte de alguma agremiação de samba?
- É claro que não, mas se quisermos podemos.
- E querem?
- No momento não é o que importa. O que importa é sentir esse momento e suceder por outros de igual sensação. O gozo de viver em paz e harmonia é o prazer que muitos procuram e não fazem ideia que está bem ali dobrando o quarteirão.
Agora a angustia mesclava-se a uma confusão geral e desfalecia aquele sentimento de novidade. Esperar tornou-se imperativo e um branco de ideias surgiu e deixou-se vagar a passos mudos pela cidade até repousar no velho sofá de remendos e pêlos de gato no meio de um cômodo sombrio.
A escolha está feita e a opção desejada ficará nessa sombra sem jamais saber, pelo menos naquele exato momento, como ser literalmente pleno e confortável sem o auxílio de ninguém.

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